Texto - Homossexualidade: realidade e
preconceito
1. O sentido da sexualidade
(De João Silvério Trevisan)
Perguntar por que sou homossexual é tão inútil quanto perguntar por que
nasci com olhos azuis e não castanhos, comentava o escritor francês Jean Genet,
numa antiga entrevista. Com isso, ele queria dizer que existe uma
subjetividade insubstituível em ambos os casos: é tão pessoal ter os olhos
azuis quanto ser homossexual. E, portanto, desnecessário buscar explicações.
Ninguém pode acusar ninguém de ter nascido branco ou preto, loiro ou
moreno, magro ou gordo. No caso da sexualidade, a confusão se instaura porque
entram em discussão motivos que nada têm a ver com a lógica da subjetividade.
No decorrer dos séculos, a prática sexual tendeu a ser atropelada por
motivações invasivas, ou seja, há sempre interferências de ordem médica,
religiosa ou política para explicar a sexualidade, cuja diversidade é tão
grande quanto o número de seres humanos.
Nas sociedades ocidentais, homossexuais foram perseguidos pela
inquisição, em nome da fé cristã – e até hoje, os argumentos bíblicos são um
dos maiores entraves à aceitação da homossexualidade. Tomam-se trechos isolados
da Bíblia para condenar a sexualidade entre pessoas do mesmo sexo. Mas
escondem-se trechos em que a Bíblia parece totalmente inadequada aos costumes
modernos, como apedrejar mulheres adúlteras ou ter direito de escravizar
pessoas. Quer dizer, a Bíblia é manipulada por motivos alheios a ela, do modo
que melhor convém a quem a manipula.
No campo político, homossexuais já foram perseguidos durante o nazismo,
chegando a serem mandados para campos de concentração. Sob o comunismo
estalinista, em vários países, foram condenados a trabalhos forçados ou
aprisionados por delito contra a moral socialista.
Durante muito tempo, a ciência tem servido para embasar essas
perseguições e discriminações, por considerar a prática homossexual como
anormal. A psiquiatria, por exemplo, definia a homossexualidade como uma fase
imatura da heterossexualidade ou resultada de um desvio da personalidade.
"O texto reflete a opinião do autor"
2.
Conceito e compreensão
Todos esses argumentos,
no fundo, partem de um conceito equivocado de que a sexualidade só serve para a
procriação. Daí, ser considerado normal só aquilo que visa perpetuar a espécie.
Não por acaso, a masturbação ainda é vista como um pecado – por desperdiçar a
semente. Por essa ótica, também os casais sem filhos deveriam ser proibidos.
Solteiros, nem falar. Com a chegada da pílula anticoncepcional, tudo virou do
avesso: nem a mulher era obrigada a fazer sexo procriativo, nem os casais
deveriam transar apenas para fazer filhos. Mais ainda: atualmente existem novas
tecnologias de reprodução, graças às quais não é necessário sequer o
relacionamento sexual entre um homem e uma mulher. Muita gente prefere a
reprodução por inseminação artificial ou fecundação in vitro, desvinculando
sexualidade e reprodução. Ou seja, a sexualidade é um componente da psique
humana muito mais rico do que os donos da verdade médico-religiosa nos
impunham.
A humanidade vai
sofrendo novas compreensões no desenrolar da história, e seus costumes vão
mudando. Até o século 18, mulheres não podiam ser atrizes nem cantoras em
teatro e ópera, pois o palco era considerado inadequado para o recato feminino.
Isso valeu pelo menos até o começo do século 20. Talvez seja difícil de
acreditar, mas no Brasil, até 1932 as mulheres não podiam votar. Nada a
estranhar, se considerarmos que a Declaração Universal dos Direitos Humanos só
foi adotada a partir de 1948. Até meados da década de 1960, a virgindade era um
tema tabu para mulheres: se não se casassem virgens, eram consideradas
prostitutas e desprezadas.
"O texto reflete a
opinião do autor".
3.
Orientação sexual
Durante séculos, a
homossexualidade foi reprimida e perseguida em função da consideração simplista
de que apenas a prática heterossexual seria normal. Olhando pela ótica da
diversidade sexual humana, essa heteronormatividade é totalmente equivocada.
Hoje,
compreende-se que a heterossexualidade é apenas um
tipo específico de orientação
sexual. Existem outras, portanto. A homossexualidade é uma delas, a
bissexualidade é outra. Quer dizer, seres humanos são sexualmente orientados
para diversas direções, independentemente
de quererem ou não.
Se muita gente se
descobre homossexual depois de um casamento heterossexual é porque percebeu
muito tarde algo de que não tinha plena consciência ou não tinha condições de
encarar.
Uma pessoa pode também
se sentir homossexual e se reprimir deliberadamente, para seguir determinadas
prescrições e normas que estão contra sua natureza, ou seja, contra sua
orientação sexual. Se essa pessoa não se assumir, correrá sérios riscos de
conflito psicológico – depressão e alcoolismo, entre outros.
Para se sentir fiel a
si mesma, ela terá que fazer uma escolha, nem sempre fácil – pois às vezes vai
contra a expectativa de sua família ou de sua igreja ou de sua comunidade. Para
seu próprio bem, essa pessoa terá que fazer uma opção em função de sua
orientação sexual.
Veja, portanto,
a diferença entre “orientação sexual” e “opção sexual”: apesar de não ser uma
escolha, a orientação só será plenamente possível com uma opção tomada.
A homossexualidade não
tem aumentado nos dias de hoje, nem aumentará no futuro. O que vai aumentar,
com certeza, é a consciência dos direitos de orientação sexual. Ou seja, as
pessoas estão mais tranquilas para vivenciar a sua sexualidade. Independente de
ser homossexual, heterossexual ou bissexual.
"O texto reflete a
opinião do autor".
4.
Preconceito
Diante do quadro
exposto acima, pode-se entender como o preconceito teve terreno farto para
florescer. Preconceito significa exatamente o
que está expresso no termo: é um julgamento que se faz antes de se conhecer o
conceito.
Resulta de uma
generalização. Se não gosta de negros por algum motivo, você está utilizando
uma lógica irreal (racista) ao concluir que só gente branca é legal. Ou se você
acha que as mulheres são burras, você está automaticamente implicando que todos
os homens são inteligentes pelo fato de serem homens. Cá entre nós, só alguém
totalmente desinformado poderia pensar uma coisa dessas. Mas todo preconceito é
insidioso: ele se instala por
motivos irracionais e nem sempre conscientes.
O mesmo ocorre com o
preconceito sexual. Se você julga que homossexuais são imorais por natureza,
está supondo algo absurdo: que só se pode ser moral praticando a
heterossexualidade. Como se não houvesse a possibilidade de ser
heterossexual e imoral: por exemplo, gerando filhos e depois jogando-os na rua.
Por outro lado, homossexuais não caíram do céu: com certeza, são filhos de
heterossexuais. Ser heterossexual ou ser homossexual não se pega como doença: é
da natureza de cada um/a.
Portanto, o preconceito
é perigoso por falsear a realidade. Às vezes, ele é tão intenso e tão
irracional que evolui para a homofobia. Existem líderes religiosos ou políticos
que transformaram o sentido da sua vida em condenar e perseguir a
homossexualidade. Não conseguem pensar nem falar em outra coisa. Isso
caracteriza uma verdadeira obsessão, uma mania. Se a mania resulta de recusa ou
medo extremos, então se transforma naquilo que a psicologia chama de
fobia.
Existe gente que tem
fobia de cobra, de lugar público, de altura. O que caracteriza esse medo
extremo (fobia) é a impossibilidade de controlá-lo. Ora, se uma pessoa não
controla uma parte de si, significa que ela está sendo movida por motivos
irracionais ou inconscientes. São motivos maiores do que ela. Isso pode
caracterizar uma doença, e em muitos casos requer tratamento.
"O texto reflete a
opinião do autor".
5.
Homofobia
Homofóbicos entram
nessa categoria. Têm ódio irracional de homossexuais, numa espécie de racismo
sexual – numa terminologia mais específica, são sexistas.
A homofobia é uma visão
sexista contra homossexuais. É um preconceito levado ao extremo. Agredir um
casal de homens que estão abraçados ou de mãos dadas na rua é homofobia porque
você parte do princípio de que eles são homossexuais e os ataca, sem sequer se
questionar. Pode errar feio, como aconteceu recentemente no interior de São
Paulo, quando um grupo de rapazes agrediu dois homens abraçados, sem saber que
eles eram pai e filho – chegaram ao extremo de cortar um pedaço da orelha do
pai. Ou quando atacaram dois amigos na Avenida Paulista, em São Paulo, só
porque eles estavam próximos de locais frequentados por homossexuais – e os
dois na verdade eram heterossexuais. Esses homofóbicos estão de tal modo
possuídos pelo ódio que perdem o freio do raciocínio.
O que move a fobia contra
homossexuais? Os motivos imediatos que instrumentalizam a homofobia podem ser
convicções religiosas e políticas extremadas. Muitos neo-pentecostais fanáticos
têm convicção absoluta de que a homossexualidade é uma abominação ante os olhos
de Deus. Até o ponto de gastar dinheiro para colocar um outdoor com essa frase,
como aconteceu numa outra cidade do interior paulista. Eles não apenas
reprovam: atacam moralmente, quando não fisicamente, porque não conseguem
conter sua agressividade. Há também os conservadores políticos radicais, como
neonazistas, por exemplo. Nessa categoria entram inúmeras gangues de skinheads
que odeiam igualmente judeus, negros, nordestinos e homossexuais. Mas há também
pessoas comuns, que cresceram num ambiente que favoreceu suas convicções
homofóbicas.
Muitos sequer temem
manifestar publicamente sua convicção de que homossexuais têm que morrer, que
são sujos, transmitem aids e, por isso, são lixo a ser descartado. Ora, essa
gente está propondo o extermínio. E por um motivo torpe, quer dizer, puro ódio
irracional.
"O texto reflete a
opinião do autor".
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*neo-pentecostais* são
pessoas que relatam não se apegar a bens matérias e têm um jeito diferente de
falar sobre Deus. O mundo espiritual está dividido entre Deus e o Diabo. Para
eles a doença só existe em quem não acredita em Deus e sua origem é o demônio.
6. Motivações da homofobia
Há uma infinidade de motivações
psicológicas dissimuladas por debaixo das tais convicções religiosas ou
políticas, que funcionam apenas como gatilho para a violência. Frequentemente,
essas pessoas estão se defendendo de alguma coisa que as ameaça. Quer dizer,
sentem-se atacadas e acham legítimo usar o ódio ou a violência para se
defender. Movidas por alguma frustração pessoal, elas precisam criar bodes
expiatórios, e os atacam como culpados dessa frustração. Pode ser que sofram de
baixa auto estima, então descontam em quem consideram mais desprezível.
Pode ser que estejam condicionadas por
problemas emocionais desde sua infância, criadas em famílias disfuncionais –
por exemplo, com pai bêbado e violento. Pode ser que tenham sofrido violência
sexual na infância. Podem ser também meros filhos de classe média, mimados por
total falta de autoridade ou ausência dos pais.
Uma outra possibilidade mais sutil, é
que um homofóbico pode ser um homossexual com dificuldade de se assumir. São
comum os crimes contra lésbicas, gays, travestis e transexuais serem cruéis.
Num deles, reportado na imprensa, um homossexual foi morto com 97 facadas, o
que comprova um ódio excepcional. Na ocasião, o ex-deputado Fernando Gabeira
escreveu alguma coisa que nunca esqueci: se 7 facadas são suficientes para
matar uma pessoa, a quem o assassino estaria tentando matar com as outras
90?
O próprio Gabeira aponta uma
possibilidade: estaria matando no homossexual diante de si aquele homossexual
que estava dentro dele mesmo. A vítima funcionava, então, como um espelho a ser
quebrado, exterminado, para acabar com a visão de algo que denunciava a
homossexualidade reprimida do assassino, ameaçado pela simples existência do
gay.
Heterossexuais tranquilos com sua
sexualidade não perdem a esportiva por tão pouco.
"O texto reflete a opinião do autor".
7. Gênero e costumes sociais
Sabemos que os costumes sociais são
mutáveis, pois fazem parte do contexto de cada época. Os papéis determinados
culturalmente para machos e fêmeas são relativos e mudam de uma cultura para
outra ou até dentro de uma mesma cultura, no decorrer da história.
Espera-se que homens sejam fortes, não
chorem, brinquem de carrinhos, etc. Das mulheres espera-se que sejam meigas,
obedientes, boas mães e excelentes donas de casa. Devem ser vaidosas, passar
baton e usar brinco. No entanto, hoje vemos que homens cuidam de seus filhos,
usam brincos, choram, mulheres usam calças compridas, dirigem taxi, são
policiais, chefiam famílias.
É muito comum as chamadas lésbicas
masculinizadas - que contestam o padrão de gênero - sofrerem preconceito por se
afastarem do feminino consagrado. E por que não contestar o padrão de
gênero? Hoje existem mulheres nas mais diversas profissões.
A mesma situação acontece com os homens
vaidosos, que cuidam do corpo, ou que querem adotar uma criança sem estar com
uma companheira.
Na sociedade atual não cabe mais falar
em uma determinada forma de ser homem ou mulher, ou seja, de vivenciar a
identidade de gênero. Isto posto, podemos dizer que não há mais um padrão
pré-estabelecido para o exercício dos papéis feminino e masculino.
"O texto reflete a opinião do autor"
8. Travestis e Transexuais
Hoje em dia é corriqueiro encontrarmos,
em cidades grandes e médias de inúmeros países do mundo, homens que se vestem
com roupas de mulher e mantêm características femininas. São as chamadas
travestis. Tal fato é comum também no Brasil. Muitos brasileiros consideram
travestis como sinônimo de prostituição e marginalidade. Isso não é verdade.
Existem muitas travestis que, na contramão dos preconceitos existentes, se
impuseram nas mais diversas profissões, como professoras, advogadas,
enfermeiras, políticas e cientistas. Esse é o caso, por exemplo, da cearense
Janaína Dutra, a primeira travesti a conseguir carteira e filiação junto à OAB.
Ou de Kátia Tapeti, que se tornou a primeira travesti vereadora e líder da
câmara municipal em sua cidade, no interior do Piauí.
A grande maioria das travestis sofre de
forte marginalização social. Se você imaginar a trajetória pessoal dessas
travestis não irá estranhar que muitas delas sejam obrigadas a viver da
prostituição, caiam nas drogas e se envolvam com a marginalidade. O
psicanalista Hugo Denizart escreveu um livro com entrevistas de travestis cujas
histórias contam repetidamente o mesmo percurso de violência e exclusão.
Em suas cidades distantes dos grandes centros, quando esses meninos
começam a se comportar de maneira afeminada, são humilhados, surrados e até
estuprados por primos, irmãos, vizinhos e mesmo pelo pai. Entre os 9 e os 13
anos, essas crianças são quase sistematicamente expulsas da escola e de casa,
ficando sem família e sem uma educação formal mínima. Assim, quase analfabetas,
não têm condições de emprego, restando-lhes a alternativa da prostituição. Em
geral, acabam fugindo para as grandes cidades, onde começam a se prostituir
muito jovens, às vezes ainda menores de idade. Desgarradas socialmente, sem
perspectivas de futuro e com auto estima abalada, tornam-se presas fáceis de
doenças fatais como a aids, ataques criminosos e consumo de drogas, condenadas
que estão a viver às margens da sociedade.
Além da questão de gênero e orientação
sexual, algumas pessoas relatam ter a sensação de ter nascido no corpo errado,
ou seja, com um sexo biológico que não corresponde ao gênero. Quer dizer, há um
descompasso entre seu sexo biológico e sua psicologia. Graças às novas
tecnologias, elas passaram a ter condições de readequar o seu sexo. Assim, já
existem hoje homens transexuais (pessoas que nasceram biologicamente do sexo
feminino, mas se reconhecem como homens) e mulheres transexuais (pessoas que
biologicamente nasceram do sexo masculino, mas que se reconhecem como
mulheres). Muitas e muitos chegaram a ter filhos, viveram uma vida marital,
para só depois descobrirem e vivenciarem sua verdadeira identidade de gênero.
"O texto reflete a opinião do
autor"
Nota de esclarecimento da equipe de mediação: as pessoas cuja a identidade de gênero difere do gênero designado de
acordo com os genitais são normalmente identificadas como transexuais ou
travestis.
9.
Preconceito contra travestis e transexuais
Se no Brasil é grande o
preconceito contra lésbicas e gays, ainda mais violento e generalizado é o
preconceito contra travestis e transexuais. Isso ocorre graças ao
desconhecimento do seu histórico de marginalização forçada. A situação das
travestis e transexuais requer que o Estado implemente políticas públicas para
essa população. Elas vivenciam a marginalização, violência, desemprego e várias
vulnerabilidades individuais e sociais. Só recentemente, e de maneira ainda
tímida, tem-se pensado em integrar essas cidadãs brasileiras no mercado de
trabalho, oferecendo-lhes cursos profissionalizantes. Não se trata de
paternalizar e vitimizar as travestis e transexuais, mas de dar-lhes
oportunidade de serem parte da sociedade democrática em que deveriam estar
inseridas.
O psicanalista Carl
Jung dizia que cada um/a de nós tem que representar socialmente um papel, que
ele chamava de “persona”. O papel de gênero funciona como uma persona (uma
personagem, uma máscara) criada pela sociedade, que muitas vezes escamoteia a
verdadeira identidade de gênero. O filme “Minha vida em cor de rosa” aborda
com grande propriedade esta questão: as peripécias de um garotinho que gosta de
se vestir de menina. Por motivos diversos, esse garoto teve uma percepção
diferente do que a sociedade define como sendo próprio de cada um dos dois
gêneros, o masculino e o feminino.
Na verdade, desde que
nascemos, a sociedade nos impõe comportamentos considerados próprios a cada
gênero. Começa pelas cores: a bebê menina é identificada com lacinhos e roupinhas
cor de rosa. O bebê menino tem que usar cores azuis, e nada de penduricalhos. E
assim pela vida afora: meninas brincam com bonecas, meninos com carrinhos;
mulher tem que ser discreta, homem durão; mulher é emotiva, homem é racional;
mulher veste saia e se enfeita, homem veste calça e está proibido de se
maquiar. Mas nada disso tem a ver necessariamente com ser homem ou mulher: na
Escócia homens vestem saiotes e nos países árabes, longas saias. Após a década
de 1960, quando o movimento feminista se espalhou por quase todo o mundo, as
sociedades tomaram consciência de que essas divisões de papéis eram discutíveis
e, frequentemente, injustas – quando, por exemplo, mulheres ganham menos
exercendo o mesmo ofício dos homens.
"O texto reflete a
opinião do autor"
10. Conclusão
Uma sociedade democrática precisa estar
aberta às várias formas de sexualidade, pois a principal característica das
democracias é permitir as diferenças entre os cidadãos/ãs e garantir respeito à
diversidade, para uma convivência equilibrada. São muitos os países que ainda
perseguem gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais. Mas há também
outros que estão atualizando suas políticas para reconhecer os direitos desta população.
Trata-se, portanto, de algo mais amplo, que tem a ver com a liberdade de
expressão sexual.
Num mundo em que os cromossomos estão
sendo manipulados e os transplantes dos mais variados tipos são possíveis, tais
como de mão e de face, é natural que se pense a sexualidade como um território
muito mais diversificado, com categorias mais elásticas, ligadas não apenas ao
biológico mas também ao psicológico. O mesmo se diga do amor. Graças a uma
compreensão estreita e secularmente arraigada, estamos acostumados a categorias
muito mesquinhas de amor entre as pessoas.
Amar não é prerrogativa de uma única
categoria de orientação sexual, a heterossexual, nem de padrão de beleza,
aquele vendido nos comerciais de televisão. Há homens que amam homens, mulheres
que amam mulheres, e quem ame igualmente gente do seu sexo e do outro. Há gente
que ama gordos/as, magros/as, mais velhos, mais jovens. Na verdade, o desejo é
tão misterioso e diversificado quanto o próprio ser humano. Nos dias atuais, o direito
de amar é mais um direito da democracia, portanto, mais um direito humano a
ser respeitado.
"O texto reflete a opinião do autor"
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